A escolha de Alfredo Gaspar para vice de Flávio Bolsonaro revela uma contradição interessante da direita brasileira em 2026.
Durante anos, o bolsonarismo construiu sua identidade política atacando o chamado “centrão”, denunciando acordos de bastidores e prometendo uma política diferente daquela velha fórmula de distribuir cargos e negociar apoio. Agora, diante da dificuldade de construir uma aliança mais ampla, Flávio Bolsonaro acabou apresentando uma chapa integralmente formada pelo PL.
O curioso é que aquilo que poderia ser apresentado como demonstração de força — uma chapa “puro-sangue” — também pode ser interpretado como sinal de isolamento político. Partidos importantes do campo conservador e de centro-direita preferiram manter distância no primeiro turno, dificultando a construção de uma frente eleitoral mais ampla. A própria imprensa internacional apontou a dificuldade de Flávio em atrair aliados além do PL.
O problema não é apenas Alfredo Gaspar
Alfredo Gaspar tem um currículo que conversa diretamente com o eleitorado conservador:
foi promotor de Justiça, secretário de Segurança Pública de Alagoas e ganhou projeção nacional como relator da CPMI do INSS.
Seu relatório, com mais de 4 mil páginas, pediu o indiciamento de 216 pessoas. O problema é que o documento acabou rejeitado pela própria comissão, por 19 votos a 12, encerrando a CPMI sem relatório final aprovado.
Mas existe outro elemento que inevitavelmente será explorado durante a campanha.
Gaspar foi alvo de acusações feitas pelo deputado Lindbergh Farias e pela senadora Soraya Thronicke relacionadas a um suposto crime sexual contra vulnerável. Ele nega as acusações, apresentou queixa-crime contra os parlamentares e voluntariamente realizou coleta de material genético para o esclarecimento do caso. A Polícia Federal chegou a pedir ao STF autorização para instaurar investigação.
Portanto, seria irresponsável transformar a acusação em condenação. Mas seria igualmente ingênuo imaginar que um assunto dessa natureza desaparecerá durante uma campanha presidencial.
Para uma chapa que pretende se apresentar como defensora da moralidade, da família, da segurança e do combate à corrupção, qualquer investigação envolvendo um de seus integrantes será inevitavelmente utilizada pelos adversários.
E aí aparece a contradição de Flávio. Talvez o maior problema da chapa não esteja no vice, mas no próprio candidato a presidente.
Flávio Bolsonaro pretende representar uma direita que se apresenta como alternativa ao sistema político tradicional, só que sua trajetória recente oferece aos adversários uma oportunidade para questionar justamente esse discurso.
A Câmara dos Deputados registra uma proposta de fiscalização destinada a investigar a negociação de R$ 134 milhões entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, relacionada ao financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.
A proposta também questiona a origem e o destino dos recursos e levanta suspeitas sobre a utilização de emendas parlamentares de transferência especial, as chamadas “emendas Pix”, relacionadas a entidades ligadas à produção do filme.
É importante repetir: trata-se de uma apuração proposta, não de uma condenação de Flávio Bolsonaro, mas politicamente o problema existe, porque o eleitor que ouviu durante anos que o Brasil precisava acabar com o “toma lá, dá cá” pode perfeitamente perguntar:
qual é a diferença entre o velho sistema de relações políticas e uma negociação de dezenas ou centenas de milhões envolvendo um banqueiro posteriormente preso e um projeto ligado à família Bolsonaro?
Essa pergunta será feita e não será respondida apenas com vídeos de internet ou discursos contra o PT.
A direita não precisa necessariamente do sobrenome Bolsonaro
Esse talvez seja o ponto mais delicado para o bolsonarismo. Existe, em 2026, um eleitorado de direita que é anti petista, mas também não é obrigatoriamente bolsonarista.
Há conservadores que defendem segurança pública, responsabilidade fiscal, combate à corrupção, liberdade econômica, valores tradicionais e redução do tamanho do Estado — mas que não consideram que essas bandeiras pertençam exclusivamente à família Bolsonaro. Esse eleitor pode olhar para a eleição e fazer uma pergunta simples:
é possível defender uma agenda de direita sem precisar votar em um Bolsonaro?
A existência de outras candidaturas no campo conservador torna essa pergunta eleitoralmente relevante, e é justamente aí que a “chapa puro-sangue” pode se transformar em um problema.
O centrão, que antes era chamado de “sistema”
A política brasileira tem uma ironia própria: quando Bolsonaro estava no poder, o centro político era frequentemente apresentado pelos seus apoiadores como parte do problema, mas desde 2022, para tentar vencer a eleição presidencial, o centrão passou a ser necessário, mas em 2026, esse grupo parece não está disponível.
A dificuldade de Flávio em construir uma aliança mais ampla pode ser interpretada de duas maneiras:
- como demonstração de independência ou
- como incapacidade de ampliar seu campo político.
A eleição dirá qual interpretação prevalecerá, mas uma coisa parece evidente: uma eleição presidencial não se ganha apenas com o eleitorado mais fiel.
É preciso conquistar quem não tem camiseta de candidato, quem não participa de manifestações, quem não acompanha guerra política nas redes sociais e, principalmente, quem pode votar na direita sem necessariamente votar no bolsonarismo.
No fim das contas, o eleitor conservador poderá descobrir que pode continuar sendo de direita — mesmo sem precisar entregar seu voto automaticamente a um Bolsonaro.

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